Cinco anos depois
A morte de Paulo Gustavo, a UTI, o medo de não voltar para casa e o começo silencioso de uma nova versão minha.
Cinco anos da morte de Paulo Gustavo.
Essa data sempre mexe muito comigo porque, cinco anos atrás, quando descobri pela TV sobre a morte dele, eu estava internada na UTI com COVID, lutando pela minha própria vida.
Lembro de pensar, talvez pela primeira vez desde a internação após o nascimento do João Pedro, que a possibilidade de eu morrer era real.
Até então, acho que eu tentava me agarrar a uma esperança quase automática de que tudo ficaria bem.
Mas naquele momento alguma coisa virou dentro de mim. Se o Paulo Gustavo, com toda estrutura, acesso e tecnologia que tinha ao redor dele, não tinha resistido, por que eu resistiria?
Lembro de chorar muito naquela noite.
Chorei por ele, que nunca veria os filhos, ainda tão pequenos, crescerem.
Chorei pelos filhos, que só conheceriam o pai através de fotos, vídeos e histórias contadas pelos outros.
Chorei pela mãe dele, que parecia ter no Paulo Gustavo um parceiro de vida.
Chorei pelo marido, que estava apenas começando sua família.
E chorei por mim. Pelos meus filhos. Pelo meu marido. Pela minha família.
Exatamente pelos mesmos motivos.
As lágrimas se misturavam. Os sentimentos também.
Mas lembro de acordar diferente no dia seguinte. Com medo, claro, mas também com uma vontade muito profunda de continuar vivendo.
Sem romantizar o que aconteceu, porque foi um período duro, que deixou cicatrizes físicas e emocionais em quem viveu de perto aqueles dias, hoje consigo olhar para trás e entender o quanto aquela experiência mudou a forma como eu enxergo a vida.
Mudou minha relação com o tempo.
Com o trabalho.
Com as pessoas que amo.
Com a pressa.
Com os pequenos momentos que antes passavam despercebidos
Mudou minha percepção sobre a finitude e sobre a forma como escolhemos enxergar a vida todos os dias. Pelo que falta ou pelo que existe. Pelo medo ou pela possibilidade.
Acho que algumas experiências quebram a gente em lugares difíceis de explicar. Mas também reorganizam prioridades de um jeito que não tem mais volta.
E talvez seja por isso que essa data carregue um sentimento tão contraditório para mim. Porque, junto da tristeza daquela perda que o país inteiro sentiu e da lembrança dos dias na UTI que pareciam não ter fim, ela também marca o começo dos últimos cinco anos da minha vida e da pessoa que me tornei depois deles.
Uma pessoa que aprendeu a não tratar a vida como uma certeza e a viver com mais presença.


